Cão de gado

  • Os cães de gado têm sido utilizados pelos pastores durante centenas de anos e fazem parte do sistema tradicional de pastoreio utilizado em Portugal e noutros países do Mediterrâneo e da Ásia. Como método de proteção, o cão de gado destaca-se pela sua ancestralidade e capacidade de adaptação às diferentes situações de pastoreio e de maneio tradicional do gado, sendo um método de utilização generalizada.

    Por toda a Europa mediterrânica, onde a produção pecuária adquiriu uma grande importância económica, podiam encontrar-se cães de gado acompanhando os rebanhos durante o percurso diário de pastoreio ou durante as migrações transumantes de verão, em busca de melhores pastos. Estas migrações sazonais, que podiam atingir centenas de quilómetros e durar vários meses, implicavam a movimentação de milhares de animais ao longo de rotas estabelecidas que cruzavam os países de Norte a Sul, chegando a atravessar fronteiras.

    Os cães de gado possuem uma morfologia e comportamento característicos que os tornam muito eficientes na proteção dos animais domésticos dos ataques dos predadores. Estas características resultaram de uma seleção baseada no comportamento, efetuada pelo homem ao longo de milhares de anos.

    TRANSUMANCIA1

    TRANSUMANCIA2
  • Os cães de gado são provavelmente o tipo de cães mais numerosos e deverão estar entre os primeiros cães de trabalho selecionados pelo homem (Coppinger & Coppinger, 2001). A grande maioria dos vestígios arqueológicos de cães tem sido encontrada no Médio Oriente, onde ocorreu a domesticação de todas as principais espécies de gado, e estão frequentemente associados a comunidades humanas agrícolas (Clutton-Brock, 1999). Estes cães terão posteriormente acompanhado as migrações humanas, espalhando-se por toda a Europa (Coppinger & Coppinger, 2001).

  • Os cães de gado trabalham independentemente do pastor, acompanhando o gado nas suas deslocações e mantendo-se permanentemente na sua proximidade, mas sem perturbar a sua atividade.

    FUNCAO

    Ao contrário do cão de gado, o cão de condução ou cão de virar ou cão pastor, como também é conhecido, obedece às ordens do pastor, que ajuda a reagrupar e conduzir o gado de um local para outro, perseguindo ou ladrando aos animais. Os cães de condução trabalham de acordo com as indicações do pastor não sendo, geralmente, deixados sozinhos com o gado. São geralmente cães de pequeno a médio porte e, portanto, muito ágeis. Os dois tipos de cães têm funções muito diferentes e podem ser utilizados em conjunto no mesmo rebanho.

    SERRAAIRES

    Em virtude do desinteresse pela pastorícia, durante as últimas décadas assistiu-se à diminuição da utilização dos cães de gado, o que levou à quase extinção de muitas das raças. Mais recentemente, verificou-se um aumento do interesse pelas raças caninas nacionais que se traduziu numa maior procura destes cães para companhia.

    No entanto, esta situação pode trazer alguns problemas, pois a seleção exercida sobre animais destinados à proteção de rebanhos é diferente da imposta a animais destinados a companhia. Estes são selecionados com base em padrões morfológicos e comportamentais geralmente diferentes dos requeridos para animais de trabalho, havendo o risco de se perderem padrões comportamentais importantes que estiveram na origem das raças de cães de gado (Willis, 1995).

  • A eficiência de um cão de gado está dependente do seu comportamento em adulto, o qual depende da emergência de determinados padrões comportamentais. Estes padrões comportamentais estão dependentes do estabelecimento de relações sociais com os animais do rebanho, que ocorre durante o Período de Socialização.

    Socialização
    Embora o processo de socialização possa ocorrer ao longo da vida do cão, é durante o Período de Socialização que as relações sociais com outros indivíduos (mesmo pertencentes a outras espécies), se estabelecem com maior facilidade. Este período, que decorre sensivelmente entre os 2 e os 4 meses de idade, é o mais importante no desenvolvimento comportamental do cão, uma vez que as experiências às quais o cachorro é sujeito nesta altura terão efeitos duradouros no seu comportamento (Scott & Fuller, 1965; Coppinger & Coppinger, 2001). Estas experiências irão definir as suas preferências sociais e o grupo social com que se vai identificar. É nesta fase que os cães de gado aprendem o comportamento de Atenção e começam a dirigir os padrões comportamentais típicos dos cães (e que normalmente exibiriam para outros cães), para os animais do rebanho (Coppinger & Schneider, 1995). Isto é conseguido ao condicionar o meio social em que os cachorros se desenvolvem, limitando o contacto apenas ao gado.

    COMPORTAMENTO

    Componentes comportamentais
    De acordo com o modelo proposto por Coppinger & Coppinger (1980) para os cães de gado, utilizado em vários estudos sobre o desenvolvimento e a avaliação comportamental destes cães, podem definir-se três componentes comportamentais: i) Atenção; ii) Confiança; e iii) Proteção.

    Atenção – está relacionada com a socialização do cão aos animais do rebanho, implicando o estabelecimento de laços sociais entre ambos. Um cão de gado atento é aquele que se mantém na proximidade do rebanho, acompanhando-o nas suas deslocações.

    Confiança refere-se à ausência de comportamento predatório ou de jogo por parte do cão para com os animais do rebanho. Comportamentos que perturbem a actividade do rebanho ou que levem ao ferimento e/ou morte dos animais devem ser impedidos, sendo os comportamentos mais adequados os de submissão e investigação.

    Proteção – capacidade do cão reagir adequadamente a situações estranhas e de interromper um potencial ataque e deriva dos acima indicados. Pode ser manifestada através de diversos comportamentos, agressivos ou não, que levem o predador a afastar-se do rebanho.

    Das três componentes comportamentais, a Atenção é a que melhor parece traduzir a eficiência de um cão na redução da predação. Este é um comportamento fundamental no sucesso do cão de gado, uma vez que o cão só será eficiente se estiver perto dos animais que deverá proteger (Lorenz & Coppinger, 1986).

    Além disso, existe uma correlação direta entre a Atenção e a redução da predação (Lorenz & Coppinger, 1986). Vários autores referem mesmo que não é necessário que um cão seja agressivo para com os predadores para que seja eficaz na proteção do gado (e.x.: Coppinger et al., 1988; Green & Woodruff, 1993).

    A Atenção é assim uma componente comportamental de grande utilidade, uma vez que é facilmente observável, não sendo necessário observar interações com o predador ou mesmo a ocorrência de ataques ao rebanho para poder efetuar uma avaliação dos cães.

  • Apesar do grande número de raças de cães de gado existentes, estas apresentam uma grande semelhança morfológica entre si. São geralmente cães de grande porte, apresentando cabeças maciças e arredondadas e orelhas placadas (caindo junto à cabeça). A pelagem parece ser o principal fator que permite a distinção das várias raças, podendo ser curta ou longa, e apresentando toda uma gama de cores, podendo variar do branco ao preto, resultado das preferências regionais dos pastores.

    CCL Leao2

    CCL Pomba1
    CCL Pomba2
    CSE Piloto

    CSE Ribeira
    CSE Tejo1

  • Por toda a Europa mediterrânica e Ásia, existem cerca de 30 raças reconhecidas de cães de gado. Esta diversidade resulta de uma seleção baseada, não só na capacidade de adaptação dos animais às características de cada região, mas também nas preferências estéticas regionais.

    Em Portugal estão reconhecidas 4 raças pelo Clube Português de Canicultura: o Cão de Castro Laboreiro, o Cão da Serra da Estrela, nas variadades de pelo curto e de pelo comprido, o Rafeiro do Alentejo e o Cão de Gado Transmontano.

         

    Cão de Castro Laboreiro

    O Cão de Castro Laboreiro tem o seu solar na região de Castro Laboreiro, donde recebeu o nome, entre as serras da Peneda e do Soajo. É uma raça considerada rara, sendo relativamente pouco conhecida. Na sua região de origem é cada vez menos utilizada, em virtude da diminuição dos rebanhos, apesar de continuar a proteger as manadas de gado bovino. É um cão ativo que está sempre alerta e em virtude do seu menor porte demonstra uma grande agilidade.

    Aspeto geral: Cão de perfil tendendo para rectilíneo, lupóide, tipo amastinado.

    Cabeça: Comprida e aproximando-se do tipo rectilíneo.

    Chanfradura nasal (Stop): Pouco acentuada, a maior distância do vértice do crânio do que da ponta do focinho.

    Região crânio-frontal: Regularmente desenvolvida e ligeiramente saliente, sulco frontal quase nulo; perfil aproximando-se do rectilíneo.

    Crista occipital: Pouco pronunciada.

    Orelhas: Regulares (12 cm de comprimento por 12 cm de largura), pouco espessas e de forma aproximadamente triangular, mas arredondadas na ponta; pendentes, de inserção um pouco acima da média, caindo naturalmente, e paralelamente, de um e outro lado da cabeça, como que placadas.

    Cauda: Inteira, de inserção mais alta do que a média; desce até ao curvilhão quando o animal está sossegado; quando excitado a cauda ultrapassa a linha do dorso, em forma de alfange.

    Pelagem: Predomina o pelo curto (5 cm aproximadamente); é vulgar o lobeiro nas suas tonalidades, claro, comum e escuro, vendo-se mais esta última, sendo rara a “cor do monte”.

    Altura ao garrote: De 55 a 60 cm para os machos e de 52 a 57 cm para as fêmeas.

    Informação retirada do Estalão da Raça, segundo o Clube Português de Canicultura.

    Estalão n.º 170 da F.C.I.

    A F.C.I. - Federação Cinológica Internacional, é a entidade que coordena a canicultura a nível internacional e centraliza os estalões das raças elaborados a nível nacional pelas Sociedades Caninas centrais de cada país.

    Ligações
    Clube Português de Canicultura
    Clube do Cão de Castro Laboreiro


    Cão da Serra da Estrela

    O Cão da Serra da Estrela é originário da Serra da Estrela, onde protegia os rebanhos de ovinos, que acompanhava durante a transumância. Devido à grande popularidade da variedade de pelo comprido, é a raça portuguesa com maior número de animais registados. Existe uma outra variedade de pelo curto, mais rara e menos conhecida. Devido à grande diminuição do número de rebanhos na sua região de origem, é atualmente mais utilizado na guarda de quintas e habitações. Também foi utilizado como animal de tração.

    Aspeto geral: Cão de perfil convexilíneo, molossóide, tipo mastim.

    Cabeça: Forte, volumosa, de maxilas bem desenvolvidas; alongada e ligeiramente convexa; proporcionada ao corpo, bem como o crânio em relação à face.

    Chanfradura nasal (Stop): Pouco pronunciada e a uma distância igual da ponta do focinho e do vértice do crânio.

    Região crânio-frontal: Bem desenvolvida, arredondada e de perfil convexo.

    Crista occipital: Apagada.

    Orelhas: Pequenas, em relação ao conjunto (11 cm de comprimento por 10 cm de largura); delgadas, triangulares, arredondadas na ponta; pendentes; de média inserção; inclinadas para trás; caindo lateralmente, encostadas à cabeça e deixando ver, na base, um pouco da face interna.

    Cauda: Inteira e grossa, de inserção média; porte baixo da horizontal, chega à ponta do curvilhão, quando o animal está tranquilo; em cimitarra, forma gancho na ponta; excitado o animal e em movimento, a cauda ultrapassa a horizontal, encurvando-se sobre o dorso; franjada nos cães de pêlo comprido.

    Pelagem: Existem duas variedades, a de pelo curto e a de pelo comprido, sendo atualmente mais frequente a última; só são admitidas as pelagens fulva, lobeira e amarela, unicolores ou com malhas brancas na parte inferior do focinho, do pescoço e peito, no peitoral, nas mãos e nos pés.

    Altura ao garrote: De 68 a 75 cm para os machos e de 62 a 68 cm para as fêmeas.

    Peso: Machos 45 a 60 Kg e fêmeas 35 a 45 Kg.

    Informação retirada do Estalão da Raça, segundo o Clube Português de Canicultura.

    Estalão n.º 173 da F.C.I.

    A F.C.I. - Federação Cinológica Internacional, é a entidade que coordena a canicultura a nível internacional e centraliza os estalões das raças elaborados a nível nacional pelas Sociedades Caninas centrais de cada país.

    Ligações
    Clube Português de Canicultura
    Associação Portuguesa do Cão da Serra da Estrela
    Associação de Criadores do Rafeiro do Alentejo

         

    Rafeiro do Alentejo

    O Rafeiro do Alentejo tem o seu solar nas vastas planícies Alentejanas. Tradicionalmente acompanhava e protegia os rebanhos de ovinos nas longas rotas da transumância. Com o fim da transumância e o desaparecimento do lobo na região, começaram a ser cada vez mais utilizados na guarda das grandes herdades e quintas. É um cão corpulento também utilizado em matilhas de caça grossa.

    Aspeto geral: Cão corpulento de perfil convexilíneo, molossóide, tipo mastim.

    Cabeça: Lembra a cabeça de um urso; mais larga na extremidade do crânio, menos larga e abaulada na base; proporcionada à corpulência.

    Chanfradura nasal (Stop): Esbatida; os eixos longitudinais superiores crânio-faciais são divergentes.

    Região crânio-frontal: Bem desenvolvida, arredondada e de perfil convexo.

    Crista occipital: Apagada.

    Orelhas: Pequenas a médias; triangulares; pendentes para o lado; de média inserção; dobradas na ponta.

    Cauda: Inteira e grossa, de inserção média; encurvada, voltada na ponta, mas não quebrada; quando em repouso cai abaixo dos curvilhões; quando em ação pode enrolar acima do dorso.

    Pelagem: Pelo curto ou meio comprido; são admitidas as pelagens preta, lobeira, fulva e amarela, unicolores ou com malhas brancas ou branca malhada daquelas cores.

    Altura ao garrote: De 66 a 74 cm para os machos e de 64 a 70 cm para as fêmeas.

    Peso: Machos 40 a 50 Kg e fêmeas 35 a 45 Kg.

    Informação retirada do Estalão da Raça, segundo o Clube Português de Canicultura.

    Estalão nº 96 da F.C.I.

    A F.C.I. - Federação Cinológica Internacional, é a entidade que coordena a canicultura a nível internacional e centraliza os estalões das raças elaborados a nível nacional pelas Sociedades Caninas centrais de cada país.

    Ligações
    Clube Português de Canicultura
    Associação de Criadores do Rafeiro do Alentejo

     

    Cão de Gado Transmontano

    O Cão de Gado Transmontano é originário do Nordeste Transmontano, uma região planáltica, cortada por vales e serras. Ainda é muito utilizado para a proteção do gado, principalmente o ovino. É uma raça muito recente, tendo os primeiros registos sido feitos em 2004. É um cão de grande tamanho, apresentando semelhanças morfológicas com o Rafeiro do Alentejo.

    Aspeto geral: Cão forte, de perfil lateral quadrado, molossóide, tipo mastim.

    Cabeça: Maciça e volumosa, de maxilas bem desenvolvidas, proporcionada à corpulência.

    Chanfradura nasal (Stop): Moderada; os eixos longitudinais superiores crânio-faciais ligeiramente divergentes.

    Região crânio-frontal: Bem desenvolvida, com perfil convexilíneo.

    Crista occipital: Apagada.

    Orelhas: Tamanho médio, ligeiramente mais compridas que largas, triangulares, de inserção média-alta, ponta em bico arredondado e carnudas; sendo o mais comum o pendente, podendo repuxar e preguear na vertical.

    Cauda: Inteira e grossa, de inserção e tamanho médio; tomba em sabre, podendo apresentar curva na extremidade, não ultrapassa o jarrete; em movimento o porte é alto, em foice, podendo mesmo enrolar.

    Pelagem: Pelo grosso de comprimento médio; as pelagens mais comuns são as brancas com malhas de cor preta, lobeira, fulva e amarela, unicolores ou raiadas.

    Altura ao garrote: De 74 a 84 cm para os machos e de 66 a 76 cm para as fêmeas.

    Peso: Machos 55 a 65 Kg e fêmeas 45 a 60 Kg.

    Informação retirada da Proposta de Estalão Provisório da Raça, segundo o Clube Português de Canicultura.

    Raça não reconhecida pela F.C.I.

    A F.C.I. - Federação Cinológica Internacional, é a entidade que coordena a canicultura a nível internacional e centraliza os estalões das raças elaborados a nível nacional pelas Sociedades Caninas centrais de cada país.

    Ligações
    Clube Português de Canicultura
    Associação de Criadores do Cão de Gado Transmontano

         

    Raças estrangeiras

    Existem diferentes raças de cães de gado em vários países Mediterrânicos e da Ásia, entre as quais podemos destacar algumas.

    Espanha
    Mastim Espanhol (Mastín Español)
    Mastim dos Pirinéus (Mastín de los Pirineos)

    França
    Cão de Montanha dos Pirinéus (Chien de Montagne des Pirénées)

    Itália
    Cão de Pastor Maremmano- Abruzzese (Cane da Pastore Maremmano-Abruzzese)

    Eslovénia
    Cão de Pastor de Kraski (Kraski Ovcar)

    Hungria
    Komondor
    Kuvasz

    Eslováquia
    Slovensky Cuvac

    Polónia
    Cão de Pastor Polaco Tatra (Polski Owczarek Podhalanski)

    Macedónia, Sérvia e Montenegro
    Cão de Pastor Jugoslavo (Sarplaninac)

    Rússia
    Cão de Pastor da Ásia Central (Sredneasiatskaïa Ovtcharka)
    Cão de Pastor do Cáucaso (Kavkazskaïa Ovtcharka)
    Cão de Pastor da Rússia Meridional (Ioujnorousskaïa Ovtcharka)

    Turquia
    Cão de Pastor da Anatólia (Coban Köpegi)
    Akbash (raça não reconhecida pela FCI)

    Tibete
    Mastim do Tibete (Do-Khyi)

    Marrocos
    Cão Pastor do Atlas (Aidi)

    Ligações
    Clube Português de Canicultura
    Federação Cinológica Internacional

  • A avaliação da eficácia dos cães de gado é geralmente efetuada de acordo com três critérios: i) evolução do número de prejuízos; ii) comportamento do cão de gado; e iii) satisfação do proprietário. Os dados comportamentais são utilizados para complementar a avaliação, uma vez que a evolução anual do número de prejuízos pode ser influenciada por muitos fatores externos à qualidade do cão. A satisfação do proprietário relativamente ao desempenho dos seus cães é também um critério importante para avaliar o sucesso deste método de proteção, uma vez que a sua avaliação pode diferir da realizada pelos técnicos.

    A avaliação dos cães de gado só deve ser efetuada após os cães atingirem a maturidade (18-24 meses de idade), pois antes dessa altura não se deve esperar que o cão comece a defender eficazmente o rebanho.

    Apesar da sua elevada eficácia, a utilização de cães de gado de qualidade pode não impedir totalmente a predação, sendo importante a conjugação com outros métodos de proteção complementares para a obtenção de melhores resultados. Além disso, em determinadas situações, os cães de gado podem não ser o método mais eficaz. A seleção dos métodos a utilizar deve ter em conta a sua adequação às condições existentes, nomeadamente, ao tipo de pastoreio e de pastagem, à espécie e densidade do predador, e ao efetivo e espécie/raça do rebanho.

    Análise dos prejuízos

    Os dados relativos a 40 cães de gado das raças Cão de Castro Laboreiro e Cão da Serra da Estrela de pelo curto, integrados em rebanhos de pequenos ruminantes no Norte e Centro do país, indicam que um ano após a integração dos cães nos rebanhos o número de prejuízos diminuiu em 75% dos casos e manteve-se em 7,5%. Os cães foram sempre considerados responsáveis pela diminuição observada dos prejuízos, que variou de 13 a 100%. Mesmo em casos em que o número de prejuízos não se manteve ou aumentou, os cães foram considerados responsáveis por reduzir os prejuízos potenciais (tendo em consideração a predação registada em rebanhos vizinhos) (Ribeiro & Petrucci-Fonseca, 2005).

    Em inquéritos efetuados a 70 criadores de gado que utilizam cães de gado, oriundos de 16 Estados dos Estados Unidos da América e de 2 Províncias do Canadá, 89% dos inquiridos consideraram os seus cães, pertencentes a 5 raças (Komondor, Cão de Montanha dos Pirinéus, Cão de Pastor da Anatólia, Akbash e Cão de Pastor Jugoslavo), como uma mais valia em termos económicos (Green et al., 1984).

    Num inquérito a 119 criadores de gado do Colorado (Estados Unidos da América), os que possuíam cães de gado (maioritariamente pertencentes às raças Akbash, Komondor, Cão de Montanha dos Pirinéus e Cão de Pastor Maremmano-Abruzzese) perderam uma menor proporção de ovelhas e borregos, devido à predação, que os criadores de gado sem cães (Andelt, 1992).

    Noutro inquérito realizado a 217 criadores de gado nos Estados Unidos da América, proprietários de cães de gado adultos ( Cão de Pastor Maremmano-Abruzzese, Cão de Pastor da Anatólia e Cão de Pastor Jugoslavo), 77% referem uma redução no ano após a integração do cão, 43% não registaram qualquer predação ou alteração (Coppinger et al., 1988).

    Ao comparar os dados nacionais com os anteriormente referidos, é preciso ter em consideração que nos Estados Unidos da América o principal predador é o coiote, canídeo mais pequeno que o lobo, que raramente forma grupos maiores que o casal reprodutor. Os ataques dos coiotes são geralmente realizados por um ou dois indivíduos, com porte bastante menor que um cão de gado, o que facilita a proteção dos rebanhos, comparativamente a um ataque realizado quer por um lobo quer por uma alcateia.

    Análise comportamental

    O comportamento dos cães de gado é avaliado, segundo as três componentes já definidas para este tipo de cães: Atenção, Confiança e Proteção. Esta avaliação deverá ser baseada na observação direta dos cães e efetuada por técnicos especializados. No entanto, a avaliação do desempenho dos cães pelos criadores de gado tem sido muito utilizada, particularmente nos Estados Unidos da América.

    Para cada componente comportamental os cães são classificados segundo quatro categorias: Excelente, Bom, Suficiente e Mau.

    Registos comportamentais
    Com base na observação dos cães durante o período de pastoreio e na corte com o rebanho, foi possível avaliar 63 cães adultos, maioritariamente pertencentes às raças Cão de Castro Laboreiro e Cão da Serra da Estrela da variedade de pelo curto. Segundo os resultados obtidos, 92% dos cães demonstraram um comportamento Bom-Excelente na componente de Atenção, 98% na de Confiança e 90% na de Proteção (Ribeiro & Petrucci-Fonseca, 2005).

    Não existem muitos outros dados que resultem do registo centífico do comportamento com base na observação dos cães durante o pastoreio dos rebanhos. É de salientar um estudo realizado em Itália com 33 cães de gado da raça Cão de Pastor Maremmano-Abruzzese, sobre o comportamento de Atenção. Neste estudo, apenas cerca de 50% dos cães observados demonstraram ter uma Atenção Boa-Excelente (Coppinger et al., 1983).

    Inquéritos aos donos
    Em termos de desempenho, dos 40 animais adultos das raças Cão de Castro Laboreiro e Cão da Serra da Estrela de pelo curto, avaliados pelos proprietários, 90% foram considerados Bons-Excelentes e nenhum foi considerado Mau. Relativamente às componentes comportamentais, 80% dos cães foram considerados Bons-Excelentes em Atenção, 98% em Confiança e 92% em Proteção (Ribeiro & Petrucci-Fonseca, 2005).

    Num inquérito efetuado no Colorado (Estados Unidos da América), que utilizavam cães de gado (maioritariamente pertencentes às raças Akbash, Komondor, Cão de Montanha dos Pirinéus e Cão de Pastor Maremmano-Abruzzese), 20 de 22 criadores de gado avaliaram o desempenho dos seus cães como Bom-Excelente (Andelt, 1992). Num outro inquérito efetuado em outros 16 Estados e 2 Províncias do Canadá, donos de 137 cães de gado pertencentes a 5 raças (Komondor, Cão de Montanha dos Pirinéus, Cão de Pastor da Anatólia, Akbash e Cão de Pastor Jugoslavo), consideraram 80% dos cães como bons guardiães (Green et al., 1984).

    Num estudo efetuado ao longo de 7 anos, incluindo 100 cães de gado pertencentes às três raças mais utilizadas nos Estados Unidos da América (Cão de Pastor Maremmano-Abruzzese, Cão de Pastor Jugoslavo, Cão de Pastor da Anatólia), e seus cruzamentos, a avaliação da Atenção dos cães efetuada pelos proprietários e considerada como Boa-Excelente, variou de 49 a 80% consoante as raças. Relativamente ao comportamento de Proteção os proprietários consideraram que 74% dos cães eram Bons-Excelentes. No que diz respeito à Confiança, as avaliações variaram desde 40 a quase 90%, consoante as raças, embora a maioria esteja acima de 80% (Coppinger et al., 1988).

    Num estudo sobre o desempenho de cães integrados em rebanhos nos Estados Unidos da América, através de uma avaliação qualitativa, foram utilizados diferentes critérios relacionados com o comportamento e eficiência do cão, bem como com a satisfação do proprietário. Dos 95 cães adultos avaliados (Cão de Montanha dos Pirinéus, Cão de Pastor da Anatólia, Akbash e Kuvasz), 66% dos cães foram classificados como Bons, 14% como Suficientes e 20% como Maus (Green & Woodruff, 1990).

    Satisfação do dono

    Os dados recolhidos junto dos proprietários de 40 cães de gado adultos das raças Cão de Castro Laboreiro e Cão da Serra da Estrela de pelo curto, indicam que mais de 90% dos proprietários estão muito satisfeitos com os seus cães de gado, solicitando outros cães para o rebanho. Apenas um dos criadores de gado que considerou o desempenho do seu cão Suficiente demonstrou desejo em o substituir por um outro, mantendo, contudo, a sua confiança na eficácia destes cães.